Se eu começasse meu ministério de novo
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Eu ainda lecionava no Seminário JMC quando tomei conhecimento do livro “Se eu começasse meu ministério de novo”, de John M. Drescher. Nele, o autor compartilha quatorze lições que considera fundamentais caso pudesse recomeçar seu ministério. Essa leitura despertou em mim o desejo de fazer o mesmo. Depois de 36 anos no ministério pastoral, também tenho algumas convicções que o Senhor foi formando ao longo dessa caminhada.
Neste texto, compartilho seis delas. Não pretendo esgotar o assunto, nem afirmar que estes sejam os únicos aspectos importantes. São apenas algumas reflexões que considero valiosas e que espero desenvolver, juntamente com outras, nas próximas oportunidades.
1. Eu procuraria ser mais disciplinado no cultivo da minha vida espiritual.
Nenhum pastor permanece firme apenas pela experiência adquirida ou pelos dons que recebeu. A oração, a leitura das Escrituras e a dependência diária de Cristo constituem a verdadeira fonte de força para o ministério. O próprio Senhor Jesus afirmou: "Sem mim nada podeis fazer" (João 15.5). Drescher diz que “Onde não houver uma vida de oração eficaz, o próprio coração da vida espiritual para de bater, nossa vida religiosa torna-se entorpecida na forma, no comportamento e no dogma”.
Reflitam um pouco nessa próxima citação do pastor Martyn Lloyd-Jones,
O teste definitivo da minha compreensão do ensino bíblico é a quantidade de tempo que eu gasto em oração… Se todo o meu conhecimento não me conduz à oração, certamente há algo de errado em algum lugar.
Note bem o que ele disse: “Se todo o meu conhecimento não me conduz à oração, certamente há algo de errado em algum lugar”. Já tem alguns anos que ministro o Módulo Vida Devocional no CTM, em Patrocínio, MG. A cada ano tenho sido desafiado a cuidar dessa importante área do meu ministério. Penso que não podemos, sob hipótese alguma, desprezar nossa vida devocional individual, a leitura bíblica e os preciosos momentos de derramar o coração diante do Senhor.
John Henry Jowett (1864-1923), pondera sobre isso de maneira bastante eloquente:
Os senhores verão que quando o seu espírito estiver enfraquecido, a sua Bíblia, os seus dicionários e os seus comentários serão apenas como outros tantos óculos sem olhos atrás: os senhores estarão inteiramente cegos!
2. Eu tomaria mais cuidado para não permitir que o orgulho dominasse meu coração.
O orgulho é um veneno que prejudica os relacionamentos. Além do que, é o orgulho quem nos cega quanto à nossa própria fraqueza. Salomão observou que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Provérbios 16.18). Raramente o orgulho pode ser percebido de maneira tão explícita. Muitas vezes ele está escondido por trás da experiência, dos resultados, da posição de liderança e até do reconhecimento recebido da igreja. Por isso, trata-se de um pecado tão difícil de identificar em nós mesmos.
Paul Tripp nos ensina que
“o pecado destrói a nossa visão espiritual. Apesar de sermos capazes de enxergar o pecado dos outros com especificidade e clareza, temos a tendência de ficar cegos para os nossos próprios”.
A reflexão de Paul Tripp nos ensina que o orgulho produz uma ilusão de autossuficiência. Aos poucos, corremos o risco de acreditar que estamos imunes a determinados pecados, e nos consideramos fortes, colocamos a vida no piloto automático e por isso deixamos de vigiar. Quando acreditamos que estamos seguros relaxamos na oração e na comunhão com Deus. A advertência de Paulo continua extremamente atual: "Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia" (1Co 10.12).
A observação de Paul Tripp na citação acima é muito pertinente. O pecado distorce nossa percepção. Tornamo-nos especialistas em identificar as falhas dos outros, enquanto desenvolvemos inúmeras justificativas para minimizar as nossas. Queridos pastores, todos nós corremos esse perigo. Como pastores, isso pode acontecer quando confrontamos o pecado da igreja com fidelidade, mas deixamos de permitir que a Palavra confronte o nosso próprio coração. É muito fácil preparar sermões para outras pessoas e, ao mesmo tempo, deixar de ouvir a voz de Deus dirigida a nós.
Como lidar com esse perigo? Temos alguns caminhos, mas sem dúvida, precisamos cultivar um coração constantemente dependente da graça de Deus. Quanto mais perto estivermos de Cristo, mais conscientes nos tornamos de nossas limitações e de nossa necessidade diária de sua misericórdia.
3. Eu não confundiria experiência ministerial com maturidade espiritual.
Paul Tripp nos ensina que muitas vezes usamos alguns “espelhos curvos” que acabam distorcendo a imagem que temos de nós e do nosso ministério. Um desses “espelhos” é o espelho da experiência ministerial. Ele diz:
A experiência lhe ensinará algumas coisas, mas ela não tem o poder de torná-lo santo. Infelizmente, quando você deixa a experiência lhe dizer que você é maduro, quando não o é, você deixa de se comprometer com a mudança porque não acredita que ela seja necessária.
Eu fui grandemente abençoado por essa reflexão de Tripp. Temos que ter em mente que nem todo pastor experiente é, necessariamente, um pastor espiritualmente maduro. Embora a experiência seja muito importante, ela, por si só, não transforma o coração e traz maturidade.
4. Eu cuidaria com muito mais zelo do meu caráter e de minha vida moral.
Precisamos ser extremamente zelosos nessa área. O talento pode abrir portas. Não temos dúvida quanto a isso, mas somente um caráter aprovado pode sustentar um ministério ao longo dos anos. Nossa vida particular deve confirmar aquilo que anunciamos no púlpito. Lloyd.Jones mostra qual é o perigo que nos cerca caso valorizemos apenas o conhecimento intelectual:
De muitas maneiras, o maior perigo com que todos nos defrontamos, é o perigo de nos contentarmos com um conhecimento e uma apreensão meramente intelectuais das coisas espirituais. Tal conhecimento é sumamente valioso, mas se ficar nisso, poderá ser completamente inútil e, de fato, positivamente danoso, porque poderá drogar-nos e deixar-nos numa condição em que achamos que nada mais é necessário.
Quando há coerência entre a mensagem e a vida, o ministério ganha credibilidade, Cristo é glorificado e a igreja é edificada. O contrário sempre conduz a dolorosos prejuízos para o pastor, sua família e a igreja. Vez ou outra tomamos conhecimento de grandes líderes que tropeçam na vida moral. Essas quedas sempre servem também como um solene lembrete de que nenhum pastor está imune ao pecado. Nem eu e nem você. O conhecimento das Escrituras, os anos de ministério e o reconhecimento público jamais devem substituir a vigilância espiritual e a dependência diária da graça de Deus. Escrevendo a Timóteo, Paulo nos orienta: "Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres..." (1 Timóteo 4.16).
5. Eu seria um pastor mais zeloso no cuidado da nossa família.
O primeiro campo de testemunho do pastor é o seu próprio lar. Cuidar da família não compete com o ministério; faz parte dele. As Escrituras são muito claras nesse ponto. Ao apresentar as qualificações para o presbítero, Paulo afirma: "Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?" (1Tm 3.5). Essa não é apenas uma exigência para o início do ministério, mas um princípio que deve nos acompanhar durante toda a caminhada.
Ao longo dos anos, e sei que essa não é apenas minha experiência, mas de vocês também, tenho observado que muitos ministérios não foram abalados por heresias ou escândalos públicos, mas pelo desgaste silencioso dos relacionamentos dentro de casa. O preço desse descuido costuma ser alto e, muitas vezes, irreparável.
Queridos irmãos, precisamos cuidar do nosso lar com muito mais zelo com que cuidamos da igreja. Que nossos filhos encontrem em nós um pai presente e piedoso. Que nossa esposa veja, antes de tudo, um homem que a ama como Cristo amou a Igreja. Que nossa família seja o primeiro lugar onde o evangelho que pregamos seja vivido de forma sincera.
6. Eu estaria sempre aberto à correção e ao ensino.
Nenhum pastor amadurece sozinho. Acredito que você já saiba disso. Precisamos cultivar um espírito ensinável e permanecer abertos à exortação dos irmãos. Deus nunca planejou que caminhássemos de forma isolada. O apóstolo Paulo nos exorta a "seguir a verdade em amor" (Ef 4.15) e a abandonar toda falsidade para "falar a verdade cada um com o seu próximo" (Ef 4.25). Tiago vai ainda mais longe ao afirmar: "Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados" (Tg 5.16). Esses textos também se aplicam aos pastores. Nós não estamos acima dessas exortações; somos igualmente necessitados delas.
Oro para que Deus nos livre do espírito de autossuficiência e nos conceda a graça de cultivar amizades sinceras e relacionamentos nos quais haja liberdade para aconselhar, confrontar e encorajar uns aos outros. Não se esqueça de a humildade para ouvir é uma virtude indispensável para quem deseja permanecer fiel até o fim do ministério. Todo pastor precisa de pessoas piedosas que tenham liberdade para confrontar atitudes e apontar áreas de perigo. Você tem essa pessoa na sua vida?
Caros irmãos, minha oração é que o Senhor preserve cada um de nós com um coração humilde, um caráter irrepreensível e uma fé perseverante, para que nosso ministério glorifique a Deus e honre o Senhor Jesus Cristo, nosso Supremo Pastor.
Até nossa próxima reflexão e conto com seu apoio,
Rev. Gildásio Reis Presidente do Sínodo de São Paulo



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