Pastoral - "Vozes da Tempestade" - Rev. Edinaldo Almeida

Minha esposa sempre me repreende alegando que eu gosto demais de tomar remédios. Na verdade, o que eu não gosto é de sentir dores e graças a Deus eu não sou um homem de dores, raramente eu as sinto. Mas como pastor tenho visto de perto a dor e o sofrimento na vida de pessoas próximas. Conviver com a dor e o sofrimento não é algo fácil. Os medicamentos estão todos aí exatamente para nos livrar da dor, ou pelo menos aliviá-la. Saber que servimos a um Deus que tem todo poder e que é um Deus de amor, ao invés de trazer confiança e descanso pode trazer revolta na vida de alguns. Afinal de contas, por que está demorando tanto? Por que não curou? Por que permitiu que isso acontecesse? Dificilmente passaremos pelas tempestades nesta vida sem que elas em menor ou maior proporção mexam com o nosso coração. O texto bíblico de Marcos 4.35-41 fornece algumas lições sobre as vozes da tempestade. Ou seja, como nos comportamos, questionamos e o que aprendemos quando os ventos são contrários. Vejamos o que o texto bíblico tem a nos ensinar.

1) Voz da indiferença divina: Note como eles se dirigem a Jesus: “Mestre, não te importa que pereçamos?” Essa é uma das vozes que pode ecoar dentro do nosso coração quando nos vemos em aflição. Os discípulos estavam amedrontados enquanto Jesus dormia como se nada estivesse acontecendo. Na cabeça deles aquele comportamento divino era inconcebível e por isso eles o repreenderam. Nossos sofrimentos e a demora de Deus em nos responder do jeito que gostaríamos podem nos levar a pensar que ele está indiferente.

2) Voz da incompatibilidade entre a presença de Jesus e a presença do sofrimento: Infelizmente não são poucos os que pensam que o sofrimento e a caminhada cristã são incompatíveis. Servir a Jesus, amá-lo e obedecê-lo passam a ser vistos como um passaporte de imunidade contra o sofrimento. Se nossa vida é gasta no serviço dele, por que ele permitiria o nosso sofrimento? É como se o livramento fosse o meio de Deus em nos recompensar por lhe obedecermos. Esses pensamentos revelam falta de entendimento sobre a salvação pela graça, mediante a fé. Algumas aplicações sobre essa passagem:

a) Creia que Jesus prometeu uma chegada segura e não uma viagem tranquila. Disse ele: “Passemos para outra margem” (Mc 4.35). Ao longo do seu ministério Jesus falou sobre perseguição, conflitos familiares, sobre tomar a cruz e segui-lo, sobre o ódio do mundo e sobre aflições (Mt 5.10-12; Mt 10.34-39; 16.24-28; Jo 15.18-20; 16.33). Em momento algum foi dito que a caminhada cristã seria sem problemas.

b) As adversidades nos proporcionam uma grande oportunidade para exercitarmos nossa fé em Cristo: Disse Jesus: “Por que sois assim tímidos?! Como é que não tendes fé? Jesus estava presente e isso deveria ser suficiente. Não deveria existir pânico, mas confiança, descanso e segurança. Após sua ressurreição, Jesus fez a promessa de que estaria com os discípulos todos os dias (Mt 28.20). A presença de Jesus deve ser suficiente para encher o coração de luz. Mesmo que andemos pelo vale da sombra da morte não devemos temer mal algum, pois Cristo, o nosso bom pastor, está conosco. Ainda que possuíssem uma fé pequena, os discípulos foram até Jesus e lhe suplicaram por socorro.

c) As adversidades nos proporcionam uma boa oportunidade para conhecermos mais profundamente a Cristo. E eles, possuídos de grande temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? Este questionamento certamente mostra o propósito principal da experiência que os discípulos tiveram, isto é, revelar de forma grandiosa um pouco sobre a pessoa de Jesus Cristo. Vale a pena lembrarmos as palavras de Jó: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42.5).

Não desperdice o seu sofrimento e o momento adverso que estamos enfrentando.


Rev. Edinaldo F. Almeida (Pastor da Igreja Presbiteriana de Osasco e Presidente do Presbitério Oeste Paulistano - PROP)

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