Lidando de Maneira Bíblica com Conflitos Interpessoais
- 28 de ago.
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Os conflitos entre pessoas são inevitáveis na vida. Fazem parte das relações humanas. Nos relacionamentos da liderança eclesiástica, no relacionamento conjugal, no relacionamento no trabalho, na igreja, entre familiares, entre amigos, enfim. Quando pensamos em ministério pastoral, pensamos em relacionamentos. Fomos chamados para cuidar de pessoas, ensinar a Palavra, promover a unidade do rebanho e conduzir a igreja à maturidade em Cristo. Entretanto, não podemos nos esquecer que a igreja é formada de pecadores em processo de santificação, e por isso, inevitavelmente enfrentará conflitos ao longo do percurso.
Nesses anos de ministério já estive envolvido em muitos conflitos. Alguns deles, eu mesmo fui a causa, em outros, mesmo tentando evitar, acabei sendo envolvido. Eu sei que você também já teve alguns casos de conflitos.
Os conflitos, portanto, não são uma anomalia na vida da igreja, nem indicam necessariamente o fracasso da nossa liderança. Desde os tempos apostólicos, as igrejas conviveram com divergências, tensões e dificuldades relacionais. O próprio apóstolo Paulo precisou lidar com divisões, críticas, falsas acusações e desentendimentos entre irmãos. Em Filipenses 4.2, ele aconselha a duas irmãs a encerrarem suas discórdias: “Rogo a Evódia e a Síntique pensem concordemente no Senhor”.
Assim, a questão não é se haverá conflitos na igreja, mas como eles serão enfrentados. Como pastores, não devemos ignorar os problemas nem reagir de forma impulsiva. Antes, devemos procurar conduzir o rebanho com sabedoria, humildade, firmeza bíblica e espírito conciliador, buscando sempre a glória de Deus, a restauração dos relacionamentos e a edificação da igreja de Cristo.
I. As Vantagens do Conflito.
Precisamos em primeiro lugar reconhecer que o conflito é sadio. A incapacidade de se resolver o conflito geralmente acontece porque não o aceitamos. Podemos errar se pensarmos que pelo fato de amar uns aos outros, não podemos ter nossas diferenças. O conflito não é apenas inevitável, ele até certo ponto, tem suas vantagens:
O conflito ajuda a purificar a liderança.
Antes de tudo, é importante reconhecer que Deus usa os conflitos como um instrumento de santificação na nossa vida. É importante termos em mente que Deus pode utilizar momentos de tensões, críticas, decepções e divergências que surgem ao longo da caminhada. Nessas ocasiões, o Senhor revela motivações ocultas, confronta o orgulho, desenvolve a humildade, fortalece a paciência e ensina o pastor a depender mais da graça do que de suas próprias capacidades.
Alguém certa vez afirmou que as pessoas com quem diferimos tornam-se a "lixa de Deus", usada para remover as arestas da nossa liderança. Pare um pouco e pense em como essa imagem ilustra bem a maneira como Deus trabalha em nossa vida. Assim como a lixa desgasta as imperfeições da madeira para produzir uma superfície mais lisa, o Senhor utiliza os relacionamentos difíceis para moldar o nosso caráter. Embora o processo seja desconfortável, o resultado é uma liderança mais madura, compassiva, prudente e semelhante a Cristo.
Quando respondidos de forma bíblica, os conflitos deixam de ser apenas problemas a serem resolvidos e tornam-se oportunidades de crescimento espiritual. Eles ensinam o líder a ouvir antes de falar, a agir com mansidão em vez de impulsividade, a perdoar como foi perdoado e a confiar que Deus continua soberano mesmo em meio às tensões. Assim, a liderança não apenas conduz a igreja, mas também é continuamente transformada pelo Supremo Pastor, que usa até as circunstâncias mais difíceis para aperfeiçoar aqueles que chamou para cuidar do seu rebanho (1Pe 5.2-4).
II. Três máximas sobre os relacionamentos.
No livro Relacionamentos: Uma Confusão que Vale a Pena, Paul Tripp e Timothy Lane apresentam três máximas que servem como fundamento para uma visão bíblica dos relacionamentos.
1) Somos seres relacionais - Deus nos criou para relacionamentos.
Todos nós temos necessidade de intimidade com outras pessoas. Isso porque o homem é um ser criado à imagem e semelhança de Deus. O homem, naturalmente, assim como Deus, não vive isolado. E Ele afirma em Gênesis 2.18: “Não é bom que o homem esteja só”. Deus é Tripessoal e há relacionamento entre as pessoas da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Em nossa fome de relacionamentos revelamos um aspecto da nossa humanidade, por isso não conseguimos viver sozinhos (Gênesis 2.18-20).
2) De certa forma todos os nossos relacionamentos são difíceis.
Todos os nossos relacionamentos são menos que perfeitos. Se quisermos que prosperem, precisamos investir trabalho. Imediatamente após a empolgação de Gênesis 2, segue Gênesis 3 onde a entrada do pecado causa frustração e confusão nos relacionamentos. Em Gênesis 3, encontramos homem e mulher trocando acusações e calúnias.
Nossa luta com o pecado se revela neles a cada instante. Se você quiser desfrutar de algum progresso ou de alguma bênção em seus relacionamentos, precisará reconhecer seu pecado com humildade e dedicar-se ao esforço que eles exigirem.
3) Deus nos mantém em relacionamentos confusos para cumprir seu propósito redentor.
Paul Tripp nos dá um grande encorajamento para a maneira como devemos enxergar nossos relacionamentos difíceis. Diz ele:
Na verdade, um relacionamento difícil é sinal do amor e do cuidado de Deus. Queremos que Deus simplesmente transforme o relacionamento, mas ele não se contenta antes que o relacionamento nos transforme também.
O que acontece em meio à confusão dos relacionamentos é que nosso coração é revelado, nossas fraquezas são expostas e nós começamos a chegar aos nossos limites. Somente quando isso acontece é que procuramos a ajuda que apenas Deus pode providenciar. Pessoas fracas e necessitadas que encontram esperança na graça de Cristo são o sinal de um relacionamento maduro. O aspecto mais perigoso dos seus relacionamentos não é a sua fraqueza, mas sua ilusão de força. A autoconfiança quase sempre é ingrediente de um relacionamento ruim. Embora desejemos evitar a confusão e desfrutar de uma comunhão profunda e íntima, Deus diz que é no próprio processo de lidar com a confusão que encontramos essa intimidade. Quais são os relacionamentos que mais têm valor para você? Muito provavelmente são aqueles em que houve períodos de dificuldades, muito esforço e sofrimento
Deus usa as alegrias e, especialmente, as dificuldades dos relacionamentos para revelar o que há em nosso coração e nos conformar à imagem de Cristo. Os conflitos, as decepções e as diferenças não são apenas problemas a serem eliminados, mas oportunidades para crescimento espiritual, arrependimento e manifestação da graça.
III. A Origem do Conflito.
Os conflitos interpessoais se manifestam por diversas razões, mas na essência eles revelam a presença de um aspecto muito comum e bem antigo na história humana - o egoísmo (Fl 2.3). Tiago pergunta: “de onde procedem guerras e contendas, que há entre vós? De onde, se não dos prazeres que militam na vossa carne?” (Tiago 4.1).
De acordo com esta observação, podemos entender que Tiago ensina que a raiz dos conflitos está na necessidade de ser notado, de fazer a própria vontade. Somos egoístas e não queremos ceder. Estamos sempre lutando para satisfazer aos nossos desejos. Trata-se de um desejo de buscar a autossatisfação custe o que custar.
Mas além desta causa original, podemos pensar em outras quatro razões da presença dos conflitos, como desdobramentos do egoísmo:
1. Carnalidade: A raiz de muitos conflitos está na natureza pecaminosa do ser humano. Ao apresentar as "obras da carne", Paulo demonstra que boa parte delas se manifesta justamente nos relacionamentos interpessoais, por meio de "inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões e invejas" (Gl 5.19-21). Quando a carne governa o coração, os conflitos tornam-se inevitáveis.
2. Ressentimento: O ressentimento surge quando a pessoa alimenta mágoas, recusa-se a perdoar e mantém questões mal resolvidas em seu coração. Em vez de buscar a reconciliação, permite que a amargura se fortaleça, comprometendo os relacionamentos. As Escrituras condenam essa postura (Rm 1.29-31) e nos chamam a perdoar uns aos outros, assim como Deus nos perdoou em Cristo (Ef 4.32).
3. Incompreensão ou falhas na comunicação: Muitos conflitos têm origem em falhas na comunicação. Nem sempre a mensagem é compreendida da maneira como foi transmitida, gerando interpretações equivocadas, julgamentos precipitados e desentendimentos. Além disso, atitudes marcadas pelo egoísmo e pela falta de domínio próprio agravam ainda mais essas dificuldades (2Tm 3.2-4,11-12).
4. Diferenças individuais: Cada pessoa possui uma história, personalidade, valores, crenças, experiências e perspectivas próprias. Essas diferenças influenciam a maneira como cada um interpreta as situações e toma decisões, podendo gerar divergências. A resposta bíblica não é eliminar as diferenças, mas cultivar a unidade por meio da humildade e da consideração pelos outros, conforme ensina Paulo (Fp 2.2-3).
IV. Como lidar com o conflito de modo bíblico?
A. Maneiras erradas e não-bíblicas de lidar com o conflito.
Merkh & Reimer afirmam que uma das formas mais comuns, porém inadequadas, de lidar com os conflitos é por meio da manipulação. Em vez de buscar uma solução bíblica, a pessoa procura controlar a situação para alcançar seus próprios interesses. Os autores identificam quatro mecanismos de manipulação.3
1. Poder: O conflito é enfrentado por meio da imposição da autoridade, da influência ou da força. A pessoa procura dominar o outro para que sua vontade prevaleça. O objetivo não é restaurar o relacionamento, mas vencer a discussão.
2. Paz: Nesse caso, a pessoa evita o conflito a qualquer custo, cedendo continuamente para preservar uma aparente tranquilidade. Contudo, a verdadeira paz não é alcançada pela omissão. Quem sempre recua dificilmente exercerá uma liderança saudável. Pais, por exemplo, precisam estar dispostos a enfrentar conflitos quando necessário para corrigir e orientar seus filhos (1Rs 1.6). O objetivo é conquistar ou manter a aceitação dos outros.
3. Proteção: A estratégia consiste em minimizar, ignorar ou negar a existência do problema. Em vez de enfrentá-lo com honestidade, a pessoa age como se nada estivesse acontecendo. O objetivo é evitar o sofrimento e o desconforto que o conflito pode provocar.
4. Autopiedade: A pessoa assume constantemente o papel de vítima, desviando a atenção do problema para o próprio sofrimento. Com isso, evita assumir responsabilidades e dificulta o enfrentamento da questão. O objetivo é transferir o foco do conflito para si mesmo, escapando da necessidade de lidar com a situação.
B. Maneiras corretas e bíblicas de lidar com o conflito.
B.1. Quatro pré-requisitos na solução de conflitos
Em Efésios 4.1-3, Lou Priolo destaca que a resolução bíblica de conflitos não começa com técnicas de negociação, mas com a transformação do caráter. Antes de lidar com o problema em si, é necessário cultivar quatro atitudes indispensáveis4.
Humildade
A humildade nos leva a reconhecer que não somos infalíveis. Ela nos impede de agir com orgulho, de insistir que estamos sempre certos e nos torna dispostos a ouvir, admitir erros e buscar o bem do outro. Sem humildade, qualquer tentativa de reconciliação será superficial.
Mansidão
A mansidão é a força controlada pelo Espírito. Trata-se da disposição de responder com brandura, mesmo quando somos provocados. Em vez de revidar ou agir impulsivamente, o cristão procura tratar a outra pessoa com respeito e domínio próprio, criando um ambiente favorável ao diálogo.
Longanimidade (Paciência)
A paciência nos capacita a suportar as dificuldades do relacionamento sem desistir das pessoas. Conflitos raramente são resolvidos de forma instantânea. Por isso, é preciso perseverar, dando tempo para que Deus opere no coração de todos os envolvidos.
Suportar uns aos outros em amor
Suportar significa aceitar as fraquezas e limitações do próximo, demonstrando amor prático em vez de irritação ou desprezo. Essa atitude não ignora o pecado, mas escolhe lidar com ele de maneira graciosa, buscando a restauração e não a destruição do relacionamento.
Essas quatro virtudes formam o alicerce da resolução bíblica de conflitos. Quando a humildade, a mansidão, a paciência e o amor governam o coração, torna-se possível obedecer à exortação de Paulo: "esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef 4.3)
B.2. Quatro dicas para auxiliar na resolução de conflitos
Devemos admitir que nem sempre é possível resolver uma situação conflituosa. No entanto, em Romanos 12.18, o apóstolo nos orienta: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens”. A expressão “se possível, quanto depender de vós” dá a entender que nem sempre depende de nós, mas que, quando depender, devemos nos esforçar para viver em paz com todos os homens.
Tenha por objetivo encontrar a verdade, não ganhar uma discussão.
Nossa primeira reação (instintivamente) é responder defensivamente quando desafiados. É sempre a pior resposta. Num conflito, devemos ter como objetivo encontrar a verdade para solucionar o conflito. Nossa motivação deve ser resolver o problema, e não ganhar o desafio.
Precisamos olhar por baixo do problema aparente, e assim, seremos capazes de prevenir conflitos maiores em nossos relacionamentos. Precisamos aprender a atacar o problema em si, não as pessoas e seus motivos. Numa discussão, é fácil criticar, acusar, julgar e condenar o oponente. Às vezes, agimos como se pudéssemos ler as mentes e discernir os motivos das pessoas. (Mt 7.1-2 e Rm 2.1.). Identificar o mais claro possível a real fonte de conflito; isso porque há casos em que o problema
Aprenda a assumir sua parcela de responsabilidade no problema. (Mt 7:1-5; Lc 6:42)
O líder deve ser o primeiro a assumir sua parcela no problema. Ele deve perguntar a si mesmo: “O que há a meu respeito que está causando este aborrecimento?”. Para tomar esta atitude precisamos de humildade (Tt 3:2). Humildade é pensar menos em si mesmo. É entender que o mundo não gira em torno de nós.
Numa crise de relacionamento, costumamos pensar que as coisas só serão resolvidas quando o outro mudar seu modo de ser. Raramente pensamos que nós também precisamos mudar.
Colocar a culpa sobre os outros é um dos maiores obstáculos à verdadeira solução dos problemas nos relacionamentos. (Lc 6:42). O objetivo da confrontação é sempre restauração gentil, nunca provocar feridas e magoar. Resistindo a idéia de culpar, tiramos de foco as pessoas, e buscamos encontrar a verdadeira razão do conflito.
Procure compreender a outra pessoa. (Hb. 4:15,16)
Se você não compreender o ponto de vista de outra pessoa, nunca será capaz de resolver o conflito. Talvez este seja o passo mais difícil dentro de um conflito, porém, já é 80% do caminho. Para compreender o outro, três aspectos merecem nossa atenção:
1) Desejo sincero de compreender. Nunca conseguiremos resolver conflitos sem “entrar na pele” da outra pessoa. Nossa tendência natural é ver a situação somente da nossa perspectiva. Precisamos ver as circunstâncias do ponto de vista da outra pessoa. (Hb 4:15,16).
2) Saber ouvir. Pv 18:13. É um erro que comumente cometemos é que enquanto uma pessoa fala expondo seu ponto de vista, a outra já está formulando mentalmente seu ataque ou defesa. Um passo fundamental para entender o outro e lidar com o conflito é saber ouvir. No processo de escutar é importante entender os fatos concretos, porém, os aspectos emocionais, subjetivos não deverão ser desrespeitados.
3) Respeitar a opinião do outro. Compreender não significa que você está concordando com a outra pessoa, mas a respeita por pensar diferente de você.
4) Não condene. Colocar a culpa nos outros é um dos maiores obstáculos à solução do conflito. “É preciso resistir à tentação de acusar a outra parte, ou de levantar problemas que não pertencem àquele fórum de discussão”.
Disponha-se a perdoar
A nossa responsabilidade é conceder perdão aos outros assim como Deus nos perdoou (Ef 4:32), o que envolve não guardar o pecado ou erro da outra pessoa para depois usá-lo contra ela. Devemos entregar a ofensa e o ofensor ao Senhor; pois Ele é o juiz justo (Mt 16:27; II Tm 4:8).
As Escrituras usam “esquecer” no sentido de “desconsiderar”. E mesmo que você não sinta vontade de conceder perdão a outra pessoa, você pode e deve perdoar em obediência às Escrituras e perdoar como Deus o tem perdoado (Ef 4:32).
Conclusão: A título de aplicação, seguem algumas perguntas para nossa reflexão:
1) Existe hoje em seu círculo de relacionamento alguma pessoa com quem você está tendo conflito ? Quem?
2) Você sabe qual a razão ou os motivos que geraram esta dificuldade de relacionamento?
3) Você consegue identificar algo que você fez ou deixou de fazer que contribuiu para o desgaste neste relacionamento?
4) Como você tem procurado lidar com este conflito? Sobrepujando, “apaziguando”, evitando, sentindo-se injustiçado, ou envidando esforços para sua solução?
5) Você sente-se em paz quando tem que se relacionar com esta pessoa?
6) Diante deste estudo, você consegue perceber qual a vontade de Deus para a restauração deste relacionamento? O que você pretende fazer?
Até nossa próxima reflexão e conto com seu apoio,
Rev. Gildásio Reis
Presidente do Sínodo de São Paulo



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